andando na neve no meio do nada


de repente estamos numa aula de teatro 

eu estou tentando me convencer de que ainda sobrou algum papel para eu ser. não sei porque quero isso, mas quero. você já foi todos, não é justo 

eu sempre perco pra você 


de repente estamos numa sala de espera

é chato 

eu não sei se quero isso

eu me pergunto se esse é mais um dos sonhos- eu sonho muito com você 


ainda hoje vamos deitar juntos e esquecer que somos mais complexos do que isso 

vamos fingir q o momento basta 

e ignorar o fato de que eu não sei nada 

vamos ignorar a minha vida antiga que nos observa agora por trás das gavetas fechadas 

vamos ignorar a sua vida antiga, que nos observa agora de lugares que eu nem sei


não sei de nada 


e vamos ignorar a minha e a sua vida presente 

que tá presa pro lado de fora como uma tempestade de neve  

mas aqui e agora está tão quente 

que eu quase esqueço como sou boa em matar

enganar

confundir

usar

errar 

destruir


e deito no seu peito 

esqueço quem eu era antes de ontem

talvez eu só exista aqui e agora 

construída pelas linhas de um momento plural 

um anjo na neve, um desenho no vidro embaçado do banheiro 

uma mera mortal


eu faço do seu jeito

esqueço quem eu era antes de amanhã

te comentei que o nosso último dia juntos era como uma cidadezinha preservada dentro de um globo de neve. você não podia ir embora- ia acabar 

a redoma de vidro em volta de nós ia quebrar

quando acordássemos de manhã, tudo ia ter sido um sonho, desses sonhos que eu tenho com você 

então aquele dia escolhemos não dormir 


eu nunca vi neve mas você já viu 

vai ver por isso você lida com o instante tão bem assim 

entendeu algo que eu ainda não entendi 

essa é uma sensação constante que eu tenho. 

nunca dá pra saber se estamos seguindo um tipo, suprindo um vício, quando conhecemos alguém




de repente estamos na neve. eu sinto frio e você me dá a roupa do seu corpo- não é a primeira vez. 

aqui é gelado, tá escuro, a luz de um poste solitário ilumina o seu rosto vermelho

toda vez que estamos juntos eu tento não me incomodar com o fato de que só vemos a ponta de um iceberg

toda vez que estamos bêbados falamos sobre sentimentos. 

eu me incomodo.

 não da para a gente falar das pessoas e dos planetas? você diz que dessas coisas a gente já fala sóbrio

é verdade. eu me esforço muito pra ficar na superfície e depois reclamo que queria ver o recife.


falei que te amo da forma que pessoas se permitem dançar em casamentos 

e da forma que aposentados vendem tudo para um novo começo 

só fiz isso porque vc me faz achar que eu mereço 

da forma “talvez eu possa me divertir um pouco

me deixar levar pelo momento 

me preocupar menos” 

eu não tenho certeza se é verdade 

 eu não sei de nada 

a gente caminha juntos nos meus sonhos 

ta de noite 

e neva 

eu olho pra baixo

que surpresa agradável 

se apagam as pegadas

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