beijar, entender e existir
Tem um tempo que eu venho pensando no mundo como um mar de informações que eu nunca vou entender. Se todo mundo (e é o que tudo indica) tem um cérebro igual o meu, pensa tanto quanto eu, existe os mesmos dias e minutos que eu, então talvez o mundo realmente seja isso. Um computador armazenando data infinitamente, mas a cada minuto surgem mais e mais, e as antigas não se apagam, ficam na nuvem, nas pastas, na memória. Uma rede de fios complexos que se interligam das mais imagináveis maneiras. Eu não consigo, na maior parte dos dias, acompanhar nem o fluxo da minha própria consciência, então quão desesperador é imaginar que todo mundo tem uma?
Uns tempos atrás eu achava que era tudo uma simulação e eu era a única pessoa de verdade. Eu acreditava de verdade nisso e queria voltar a acreditar. Algo meio religioso, pois os pensamentos dos outros não são tangíveis. Não há uma confirmação de que as outras pessoas pensam, porque meu único acesso ao pensamento alheio é o que eles dizem pensar/ sentir, mas isso seria facilmente mimicado numa simulação. Tipo, um robô pode falar "eu penso que ...", sabe? Se pensar = existir, então se não tenho certeza que eles pensam, não tenho certeza que eles existem. Fazia sentido. Não sei bem o que me fez mudar de ideia, mas acho que foi quando nas férias eu visitei a casa de infância e a cidade natal de duas pessoas muito importantes na minha vida em Bauru. Talvez ver as fotos emolduradas pela casa e imaginar que para aquilo estar ali existiu uma mãe por trás, que precisou mandar revelar as fotos e comprar uma moldura, e antes disso precisou ter a ideia de "vou emoldurar fotos da minha filha bebê pela casa", talvez ver os espaços e as pessoas que só existiam nas histórias que eu ouvia, talvez tenha sido isso que me trouxe a realidade de -todo mundo é tão real quanto eu-
Que merda.
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Meu primeiro beijo foi com o menino que eu gostava. Eu tinha 14 anos, ele também. Era na época da pandemia, então estávamos sentados num banco usando máscaras, assistindo o pôr do sol. Eu perguntei se podia antes de beijá-lo, quando percebi que se fosse esperar ele tomar uma atitude íamos ter que esperar o nascer do sol. Meus amigos da escola me zoaram por semanas, escrevendo "posso?" em post-its e outros materiais escolares. Durante o beijo eu fiquei pensando em doces que são doces demais, algodão doce, marshmallow, torta de maçã com canela. Eu também senti que minha vida ia mudar, que tinha uma câmera apontada pra mim e começava ali o meu filme, onde eu era uma menina adolescente bem norte americana, porque cresci assistindo muita televisão.
Na faculdade eu beijei bastante gente. Mas eles não sabiam dessa história, não o que aconteceu e muito menos como eu me senti, eles não sabiam que estavam beijando a menina que já beijou o menino da torta de maçã com canela, eles não sabiam nada. Esse é o encanto de ficar com estranhos. Vocês não existem. Você tem zero controle do que você está sendo na vida daquela pessoa. Pode estar beijando alguém que terminou um namoro de anos no dia anterior, e está imaginando a ex-namorada enquanto beija você. Pode estar beijando alguém que foi desafiado pelos amigos a ficar com uma mulher morena naquele dia. Pode estar sendo você o primeiro beijo da vida de alguém que simplesmente cansou de esperar a pessoa certa. Pode ser o quinto beijo da noite ou o primeiro em meses. Pode ser que ele te ache a mulher mais bonita da festa e pode ser que ele te ache "o que tem pra hoje". Pode ser que ele se arrependa, ou você se arrependa, amanhã ou daqui 6 meses, quando começar a namorar o melhor amigo dele. Pode ser que ele queira te levar pra casa depois. Pode ser que ela fale de vocês para as amigas amanhã (bem ou mal). Pode ser que ela fale de você para a mãe dela- eu fazia isso. Pode ser que não fale nada pra ninguém e finja que nunca aconteceu.
Eu perco muito tempo da minha vida pensando em como todas as situações do mundo são infinitamente complexas e talvez para entender alguma coisa seria necessário reviver o mesmo dia para sempre ou conversar com a mesma pessoa pra sempre.
Eu penso muito sobre beijos.
Para um beijo acontecer duas pessoas (no mínimo) precisam chegar na conclusão de que é plenamente razoável e na maioria dos casos até mesmo desejável enfiar a língua molhada na boca de outra pessoa. E diferente do sexo, beijo é uma invenção puramente social- Se toda a memória coletiva da humanidade fosse apagada e precisássemos descobrir tudo de novo, eu acho que levaria uns 5 minutos para descobrir o sexo. Mas o beijo não, ia demorar, e talvez se tivéssemos uma segunda chance na existência nem chegaríamos a conclusão de que isso faz sentido.
Mas a minha relação com beijos tem a ver com beijos passados, minha relação com sexo tem a ver com experiências sexuais passadas, e as pessoas com quem me relaciono não tem acesso a essas informações, e eu também não tenho como saber as delas, então graças a deus existimos de forma física e temos corpos e hormônios e neurotransmissores, e instintos e sangue pra ser bombeado para órgãos sexuais, pois desse jeito podemos resumir toda a experiencia a uma sensação física, e falar "foi bom" ou "foi ruim" sem falar sobre o que aquilo significa, porque sem isso nunca nos entenderíamos, nunca. Seria como falar idiomas diferentes pra sempre. Você está transando com a relação que aquela pessoa tem com sexo, que deriva diretamente da história dela, uma história que você não conhece e não pode compreender. Estamos sempre transando com estrangeiros.
Duas pessoas se beijaram. Ao assimilar essa informação, busco na minha biblioteca mental da memória as minhas experiências com o assunto. Consigo achar vezes que beijar não significou nada, e que enquanto meus olhos estavam fechados eu via um cronometro digital esperando dar um tempo mais socialmente aceito para aquilo acabar. Mas também consigo achar vezes onde beijar alguém significou tudo, e que enquanto estava de olhos fechados eu vi fogos de artifício e eu achei que podia morrer ali. Numa escala de 0 a 10, o quanto significou pra você? De 0 a 1000?
As vezes minha mãe me conta histórias detalhadas e eu não quero ouvir, mas eu imagino que para ela essas histórias são tão reais quanto as minhas memórias são pra mim, e eu não trocaria as minhas memórias por nada. Então talvez quando minha mãe me conta essas longas histórias está me dando uma chance de entender ela do jeito que eu sempre quis entender as coisas e o mundo. Então por que eu não sinto vontade?
Me machuca pensar que isso deve acontecer comigo umas 7 vezes por dia. Eu vou estar falando coisas e a pessoa que está ouvindo não queria estar ouvindo, mesmo que pra mim seja muito legal e interessante e importante, a chance maior é que não seja recíproco. Porque primeiro tenho que aprender que todo mundo tem uma consciência igual a minha e depois tenho que entender que não é nada igual na verdade, e que a música que mudar a minha vida vai passar despercebida nos olhos do resto do mundo.
A gente nunca vai se entender mesmo
Todas as conversas que eu tive ultimamente pareciam conversa fiada para evitar o elefante na sala;
Uma tragada, a música alta nos meus ouvidos, quando vejo estou surfando no mar do mundo, como quem entra num casamento de penetra, indo na onda. É divertidíssimo. As vezes eu acho que todo mundo ta fazendo o mesmo, as vezes eu imagino que ta todo mundo pensando o mesmo que eu. É um casamento estrangeiro, então além de não conhecer ninguém eu não entendo nada que eles falam. Estou debruçada sobre todas as informações que eu não tenho, fazendo amor com elas, é uma orgia imensa e internacional. Tá todo mundo dançando.
Tem vezes que chego a pensar "como é bom não saber nada"
Mas outros dias eu estou me afogando, sufocando, sendo engolida. É como se o mundo fosse um quebra-cabeça de 5 mil peças, no qual eu me esforcei muito mas que eu nunca vou terminar pois tem 2 peças faltando. Um quebra-cabeça de 8 bilhões de peças, e eu só tenho... uma. O mundo é uma biblioteca e eu sou semi-analfabeta
E talvez eu só achasse que eu era a única pessoa que existe porque estava muito desconectada do mundo, mas será que tem um jeito de estar conectada com o mundo sem ficar hiper-estimulada? Sem perder o sono imaginando como outras pessoas se sentem e como foi o primeiro contato delas com as coisas do mundo? E mais importante, será que pessoas como eu tem acesso a ele?
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