toda vez que eu choro de soluçar eu lembro do meu pai
Nosso choro é parecido. Me lembra uma bola de basquete descendo uma escada
Eu sentei na mesa em frente ao restaurante e vi ele chorar por uns 15 minutos. Uma afronta com as flores e as luzes amareladas na decoração. Nos primeiros 5 minutos as pessoas ao redor olhavam discretamente, depois só tentavam ignorar o homem barbado aos soluços. Eu não sabia bem o que fazer então só fiquei lá esperando passar, tentando comparar o que eu via com analogias que fizessem sentido. Lembro de pensar que ele parecia um animal ferido, um lobo, um alce. Lembro de tentar imaginar momentos na minha vida onde uma ação minha havia tido tanto impacto em alguém, e não conseguir pensar em nada.
Pode uma pessoa ser uma boa pessoa depois de dizer o que eu disse?
Toda vez que choro inconsolável eu lembro da cena e me vejo no meu pai, observo como as lágrimas formam uma fina camada entre meus olhos e o mundo e penso que naquele momento ele me via assim, aguada. Observo como o meu cenho se fecha com a força suficiente para quebrar uma noz, penso se ele teve dor de cabeça depois, como eu tenho.
Imagino que se coisas como as adversidades da minha vida de menina de 19 anos machucam tanto, como deve ter doído ser ele ali, ter o cérebro já totalmente desenvolvido, ter 44 anos de dor, ter o peso da ruptura de ser homem e ouvir a vida toda para não chorar (e portanto, para estar chorando ali em frente a mim, precisou romper uma membrana que eu jamais conheci), ter o peso de ser um pai, o peso de ter uma filha que não te responde a mais de um mês, o peso de abandonar a família.
Quando as pessoas me fazem chorar, se sentem poderosas e malignas como eu me senti ali?
No momento que eu ouvi o que tinha acontecido, eu escrevi um texto, aqui nesse mesmo site, não parei de escrever até terminar, foi surpreendentemente rápido. Era aquilo que eu tinha para falar, não era mais nem menos que aquilo. Decidi parar de falar com ele porque jamais queria falar aquilo.
Mas ele veio até a minha cidade, senti que não tinha escolha. Será que as pessoas que me machucam também sentem que não tem escolha?
Quão má preciso ser para sentir que fui má o suficiente? Quanta dor preciso causar para vingar a dor causada em mim?
É como se toda vez eu me teletransportasse para aquela mesa, com ele sangrando pelos olhos. Enquanto eu pensava em lobos e alces. Enquanto eu pensava quão maluca é a nossa capacidade como humanos de ferir uns aos outros só com palavras, frequências sonoras com sentidos atribuídos, desenhos infinitamente repetidos. Enquanto eu contava os segundos para aquilo acabar, e não acabava.
Enquanto eu percebia que não havia ninguém no mundo que seria capaz de tirar a minha dor de mim.
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